A evolução bonôbica, decerto, precisa de uma fundamentação espiritual. A corrente mais próxima do ideal do nosso movimento é o Tantra, por motivos óbvios para quem o conhece, mas não desejamos ser excludentes, elegendo uma única base espiritual para nossos trabalhos. Pela própria natureza do Movimento, é fundamental sermos ecumênicos.
Tudo bem que o Tantra já é algo ecumênico, podendo ser ligado a religiões hindus, ao budismo ou mesmo a religião nenhuma, de forma que poderíamos em tese ligá-lo ao Movimento sem maiores problemas. Entretanto, preferimos não fazer apropriações indébitas, inexatas ou propensas ao equívoco, pois poderíamos assim ofender as divindades específicas e atrair karmas negativos ou até mesmo tragédias, como bem sabem os autores gregos clássicos. Portanto, para não provocarmos demais o Oculto, vamos criar uma Teologia própria.
Nesse primeiro tópico da Teologia da Bonobação, optamos por estudar o livro que serve de base para a religião predominante no espaço geográfico no qual este que vos escreve reside, o Ocidente cristão. E não há melhor ponto para começar do que, naturalmente, o começo:
A Gênese.
Antes de tudo, um pequeno parêntesis: Desejamos esclarecer: Não estamos aqui para desafiar a Lei, mas para cumpri-la – ou ao menos tentar. Bom, continuemos: É curioso que a maioria das pessoas que se dizem cristãs não fazem idéia do que está realmente escrito na Bíblia. Para comprovar esta tese, pesquise por conta própria. Pergunte às pessoas qual é, afinal de contas, o fruto proibido citado na Gênese.
Vejam bem: não estou pedindo que digam algum salmo, ou sermão, ou qualquer coisa que seja necessário buscar lá no meio do Livro. Qualquer um que tenha lido de fato até a página 5 da Bíblia pode nos dizer qual é o fruto proibido. Entretanto, vocês perceberão que a maioria das pessoas ou não sabe responder, ou aparece com respostas insólitas, como “a maçã”, o que é cômico, ou “o sexo”, o que é absolutamente errado, uma vez que “sexo” foi a primeira coisa que Deus mandou o Homem e a Mulher fazerem.
Para poupar o trabalho do leitor de digitar “Antigo+Testamento+Gênese+Bíblia" no Google e depois filtrar as centenas de bobagens que aparecerão como resposta, eis o trecho, tirado do site da editora Paulus:
“E Javé Deus ordenou ao homem: «Você pode comer de todas as árvores do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá».”
Aqui já se torna claro qual é o tal fruto, certo? O “fruto do conhecimento do bem e do mal”. É óbvio o que isso significa, não é necessário ser especialista em poesia para compreender. Ao ingerir o fruto proibido, o Homem passou a ter discernimento entre o bem e o mal, o certo e o errado, e portanto a visão que ele tinha de que o Mundo é um Paraíso se dissolveu. Ao discernir o bem e o mal, o certo e o errado, a luz e as trevas, o Homem também passou a discernir a vida e a morte, e por isso, ao comer o fruto, com certeza, morreria.
A superação da dualidade é importante em qualquer corrente espiritualista séria. O bem e o mal, na verdade, não existem – são conceitos humanos, não divinos. O homem elege o que é certo e o que é errado no intento de dominar e angariar poder sobre outros homens, mais ignorantes, incapazes de compreender o Sagrado. O Mundo é perfeito da forma como é, pois assim foi feito pelo Criador, e colocar defeito na Criação é ofendê-Lo.
Entretanto, isso ainda não foi suficiente para que o Homem fosse expulso do Paraíso – se continuar lendo, verá que ele não foi expulso imediatamente após comer o fruto proibido – Oras, se Deus é onisciente, saberia de imediato que o Homem comeu o tal fruto, e o expulsaria do Paraíso no momento em que desse a mordida. Mas não aconteceu assim.
O Homem foi expulso do Paraíso porque se vestiu. Antes, andava peladão pela floresta:
“Ora, o homem e sua mulher estavam nus, porém, não sentiam vergonha.”
Depois,
“Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e o comeu; depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele comeu. Então abriram-se os olhos dos dois, e eles perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas.”
“Em seguida, eles ouviram Javé Deus passeando no jardim à brisa do dia. Então o homem e a mulher se esconderam da presença de Javé Deus, entre as árvores do jardim. Javé Deus chamou o homem: «Onde está você?» O homem respondeu: «Ouvi teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi». Javé Deus continuou: «E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?» O homem respondeu: «A mulher que me deste por companheira deu-me o fruto, e eu comi». Javé Deus disse para a mulher: «O que foi que você fez?» A mulher respondeu: «A serpente me enganou, e eu comi».”
Assim está escrito – o Homem, na verdade, não foi expulso do Paraíso imediatamente após ter comido o fruto proibido, de forma que esta não foi a causa imediata. A causa imediata foi a vergonha da nudez que veio, lógico, como consequência do fruto. Pior que possuir o conhecimento do bem e do mal é guiar-se por ele, ser escravo dele. Não é difícil associar a imagem da vergonha da nudez à hipocrisia. Vestir-se é uma metáfora para esconder dos outros quem somos de verdade – o maior problema não são as vestes físicas, mas as vestes comportamentais. Mesmo assim, a vergonha da nudez física, literal, não é menos grave que a vergonha da nudez metafórica.
É no mínimo bizarro como as pessoas chegaram à conclusão de que nudez é pecado, sendo que é visível que o pecado é justamente o oposto. Se você teve a capacidade de ler o primeiro capítulo da Bíblia, chegará fatalmente a essa conclusão: Queres agradar a Deus? Anda pelado.
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